REVISTA ANEFAC

Edição 191 Março, Abril, Maio


Contabilidade

Contabilidade Ambiental em ascensão

Área pouco conhecida das Ciências Contábeis acompanha o debate sobre sustentabilidade e sua contribuição para mercados, organizações e governos

 

Por Érica Marcondes

 

A discussão sobre como conciliar o crescimento econômico e a preservação do meio ambiente tende a crescer cada dia mais, como ressalta o Prof. Dr. Luiz Carlos Jacob Perera, do Programa de Pós-Graduação em Controladoria e Finanças Empresariais da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Inicialmente, a população mundial de cerca de 1,7 bilhão de habitantes em 1900 quadruplicou para algo em torno de 6 bilhões em 2000, e o crescimento do consumo econômico ocorreu num ritmo mais intenso. Isso fez com que nosso planeta superasse a sua capacidade de carga, isto é, de repor os recursos consumidos para o sustento dos usos e costumes dessa população”.

Ainda de acordo com Perera, os movimentos ambientalistas ganharam força nas últimas décadas do século XX, quando estes fatos foram constatados, e buscou-se, por meio da Organização das Nações Unidas, tomar medidas corretivas para evitar mal maior.

Dessa demanda surge a Contabilidade Ambiental, um ramo novo da contabilidade com o objetivo de acompanhar o desenvolvimento do patrimônio ambiental da empresa (conjunto de bens, direitos e obrigações ambientais), visando fornecer informações aos stakeholders, ou seja, a todos os interessados nas atividades empresariais – sociedade em geral, incluindo investidores e governo.

“Os líderes corporativos têm a responsabilidade de, por meio dos elementos de governança, bem gerir o patrimônio ambiental, considerando não somente a atividade lucrativa mas, acima de tudo, o interesse maior da sociedade. Este é o grande desafio empresarial: tornar a empresa lucrativa sem, no entanto, causar danos socioambientais”, pondera o professor.

Na opinião de Eliane Kihara, sócia da PwC Brasil, a contabilidade ambiental não está atrelada ao tamanho da companhia. “Todas as empresas sofrem ou provocam um impacto na utilização de recursos naturais, humanos e financeiros. Algumas em maior ou menor grau, dependendo do setor em que atuam”.

 

Pioneira

A Natura foi em 2016 a primeira empresa da América Latina a contabilizar o impacto de seus negócios no meio ambiente e na sociedade, por meio da metodologia internacional de contabilidade ambiental (conhecida em inglês como “EP&L”, Ganhos e Perdas Ambientais,). O estudo é uma análise profunda de todas as etapas de vida dos produtos da companhia, desde a extração da matéria-prima, passando por fabricação, transporte, uso e descarte dos materiais. A análise foi elaborada com consultoria técnica dos escritórios da PwC em Londres e em São Paulo, com base nos dados consolidados da Natura do ano de 2013.

Foram contabilizados o uso e a poluição da água, a emissão de gases de efeito estufa, a geração de resíduos sólidos, a emissão de poluentes no ar e o uso da terra. Para calcular os efeitos ambientais da atividade da Natura, a metodologia considera os tipos de insumos, o portfólio de produtos e as regiões onde eles são vendidos. Os impactos são mensurados a partir de cálculos com mais de 18 mil coeficientes.

O estudo é uma ferramenta de gestão pioneira que irá balizar as decisões estratégicas da Natura, para uma avaliação mais efetiva do Triple Bottom Line. O EP&L passa a ser o principal indicador para medir o impacto ambiental positivo da empresa em todos os elos da cadeia produtiva. Na época, em um comunicado da empresa, o então diretor Financeiro, José Antonio Filippo, foi enfático ao dizer que “o conhecimento desses números é fundamental para alcançarmos nossa ambição de gerar impacto positivo nos âmbitos ambiental, social e econômico até 2050”.

O estudo revelou que o impacto ambiental da cadeia da Natura – que compreende a extração de matérias-primas, a fabricação e o transporte dos produtos e o descarte das embalagens – foi estimado em R$ 132 milhões para 2013. Esse impacto teria sido maior (equivalente a R$ 164 milhões) sem as medidas do Programa Carbono Neutro. O impacto dos projetos de compensação, se considerado no cálculo da contabilidade ambiental, seria positivo em R$ 77 milhões.

 

Relatórios mais completos

Um dos meios para que a Contabilidade Ambiental funcione nas empresas é a adoção do chamado “relatório integrado”, que resume, de forma clara, aspectos mais amplos como informações financeiras, ambientais, sociais e governamentais.

Empresas como a Coca Cola, o Itaú Unibanco e a Danone já apresentaram, além do tradicional relatório de contabilidade, esta outra versão. Há gráficos que mostram, por exemplo, a quantidade de matéria-prima explorada, de água usada e de lixo produzido.

São sempre seis capitais medidos: financeiro, manufaturado, humano, social, intelectual e ambiental. “Em pesquisa recente do Massachussets Institute of Technology (MIT), que consultou sete mil pessoas em 113 países – metade empresários e investidores –, constatou que tais executivos prestam muita atenção nos aspectos de sustentabilidade e tomam decisões baseadas em informações e métricas ambientais, sociais e de governança (ESG’s)”, conta Perera.

“Nós, da PwC, ajudamos a empresa a identificar e avaliar as necessidades dos stakeholders e asseguramos as informações dos relatórios de sustentabilidade de acordo com as diretrizes da Global Reporting Initiative (GRI). Temos uma pesquisa que comprova que 80% dos executivos estão preocupados e monitorando o impacto ambiental e social das empresas. Porém, somente 10% deles divulgam relatórios de contabilidade ambiental. Mas a cobrança do mercado, dos investidores, está mudando essa conduta”, complementa Kihara.

 

Tendência

É impossível prever o futuro da Contabilidade Ambiental, mas desafiamos o Prof. Dr. Luiz Carlos Jacob Perera a arriscar um palpite: “Se for considerado de forma ampla o conceito do International Financial Reporting Standards (IFRS), deveriam ser contabilizados todos os atos e fatos administrativos que implicam em possíveis mudanças patrimoniais. Se considerarmos o alcance dos aspectos da sustentabilidade no plano ambiental e social, há muita coisa a se discutir e normatizar. Questões que implicam maiores riscos ambientais, como é o caso das mineradoras, e outras atividades agressivas à natureza, precisam ser tratadas com mais urgência. O plano social, embora não pareça, também é bastante abrangente, pois compreende desde aspectos trabalhistas até a destinação final do produto e seu descarte residual”.

 

Os especialistas da Serasa Experian disponibilizam uma lista com cinco vantagens da Contabilidade Ambiental nas empresas:

 

Maior controle do impacto das ações: A utilização da contabilidade ambiental ajuda a identificar e alocar recursos de maneira que as decisões de investimentos estejam baseadas em indicadores mais precisos com o devido acompanhamento.

Auxílio na tomada de decisões: Ferramenta estratégica importante para ser utilizada pela empresa nas suas avaliações de risco e tomadas de decisões. Os procedimentos incluem: medições físicas do consumo de insumos, avaliação monetária dos custos, poupanças e receitas relacionadas com atividades que apresentam potenciais impactos ambientais.

Padronização de processos: Aliada na geração de informações que permitem maior controle e a geração de indicadores de desempenho ambiental, este tipo de contabilidade possibilita a padronização de processos de fornecimento dos dados para os diversos públicos de interesse da organização.

Melhoria da imagem corporativa: A publicação do balanço ambiental contribui para maior transparência da gestão e uma potencial melhoria de imagem institucional. Em tempos de maior cobrança por parte dos agentes sociais sobre a responsabilidade ambiental, configura-se como uma aliada relevante. Além disso, pode ser um pilar de contribuição da empresa para um ambiente de negócios mais sustentável.

Ferramenta de gestão interna: A crescente exigência legal e normativa leva o comando das empresas a adotar procedimentos de controle e gestão mais alinhada com essas demandas. Neste contexto, a contabilidade ambiental é essencial.





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